Existem acontecimentos na vida da gente que nos levam a refletir. Vivemos hoje em um mundo onde todos têm direito a tudo, de maneira irrestrita. Vivemos no mundo do politicamente correto. Se alguém levanta uma posição contrária a isso, é execrado publicamente. Imagine, que afronta tolher a liberdade de alguém. Na mídia não faltam exemplos da condenação pública ao qual são submetidos indivíduos que ousam pisar fora do quadrado. Quando há distanciamento da situação, ficamos logo cheios de opinião, achando um absurdo essa ou aquela postura. Mas quando acontece algo dentro do nosso mundo, fica muito mais difícil entender, se posicionar e opinar.
Foi este tipo de coisa que me fez pensar e pensar e pensar. Liberdade é algo muito amplo. Mas o que ecoa na minha cabeça neste momento é algo que as minhas professoras das séries iniciais repetiam muito: "a sua liberdade termina onde começa a liberdade do outro". Tão simples a ponto de uma criança de 6 anos ser capaz de entender. Tão esquecido a ponto de adultos cheios de si serem capazes de ignorar. O mundo do politicamente correto parece ser libertador, quando na verdade, em muitos aspectos, é claustrofóbico. Uma pessoa se sente no direito de invadir a minha vida, a minha liberdade, mesmo que isso cause danos que nem ela própria poderia medir (será que não? Tenho dúvidas). E tudo isso, por quê? Porque ela estava no seu direito. Tem uma pessoa próxima que acredita que de tempos em tempos é necessário que haja uma ditadura, para que os direitos sejam suprimidos e as pessoas lutem por eles novamente, e se sintam satisfeitas, já que chega a um ponto em que começam a abusar do seu querer. Eu não sou tão radical, mas é fato que as pessoas vêm abusando dos seus direitos. E esquecendo dos seus deveres.
Raciocinando nesta linha, me sinto apta a exercer também os meus direitos. Tenho o direito a escolher quais pessoas farão parte da minha vida particular. No meu trabalho, nas aulas que frequento, não tenho esta opção. Mas na minha vida fora destes meios sociais impostos, eu tenho sim. Acredito que cheguei a um ponto na vida em que não pretendo mais expandir meu círculo de pessoas próximas. Ao contrário, é hora de restringir.
Além disso, eu tenho minhas dificuldades e limitações. O que eu quero dizer com isso? Que não tenho sangue de barata. As pessoas agora se acham no direito de tirar satisfações, de querer saber. De perceber que o chapéu se encaixa perfeitamente na sua cabeça, usá-lo e vir querer saber porque ele está servindo. E eu agora me acho no direito de ignorar, de não querer falar, de me calar. Outra coisa que eu venho aprendendo de maneiras muitas vezes dolorosas ao longo destes meus quase 28 anos, é a não ignorar minha intuição. Apesar de eu ser uma pessoa muito racional, tenho visto que ela é muito mais aguçada do que eu poderia imaginar. Usando outra frase que todo mundo escuta desde criancinha: "onde há fumaça, há fogo". Às vezes um foguinho ridículo, outras vezes um incêndio monumental. Mas sempre há. E eu já tive provas suficientes de que nunca, jamais, devo deixar de lado este meu 6º sentido.
Quer saber outra coisa que me tira do sério? Mentira. E não, eu não sou santa. Se eu já menti? Certeza que sim. A vida social de qualquer pessoa viraria um inferno se ela fosse sincera 100% do tempo. Quem nunca fingiu estar tudo bem quando estava tudo péssimo? Quem nunca disse "sua roupa tá ótima", quando não estava tão ótima assim? O que eu realmente acho é que mentira pode até ser o caminho mais curto. Mas nunca será o caminho mais barato. O preço que você paga por uma mentira pode estar muito além do que você previu no momento em que tomou a decisão de mentir. E quando você já foi exposto a mentiras que mudaram toda a sua vida ainda muito cedo, você cria um pavor, um pânico, uma aca.
E ainda tem mais: tem as pessoas que se escondem atrás da alcunha de "malucas", "surtadas", "sem noção" pra fazer o que bem entendem. Sobre isso apenas: foda-se. Esse tipo de desculpa não cola comigo. Você tem direito de ser uma pessoa maluca, eu tenho direito de te tirar da minha vida. Gente não é matemática, mas tem coisas que são mais fáceis de prever no comportamento de algumas pessoas do que o resultado de uma equação de 1º grau.
Então pra mim chega, chega de gente rasa, de gente que não me agrega nada. Pode parecer uma visão utilitarista, mas o que estou tentando fazer é simplificar a minha vida. Já bastam os problemas que eu realmente preciso enfrentar, não vou me expor a problemas eletivos.
PS: serviu o chapéu? Use e seja feliz. Ou ignore. Pode ficar puto(a) também. Mas não vem encher meu saco. Não vem querer saber o porquê ou pra quem. Se eu quisesse citar nomes, eu citaria, assim como não me furtei inúmeras vezes aqui neste blog.
domingo, 21 de abril de 2013
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Felicidade é só questão de ser
Há um ano. Exatamente há um ano, eu estava uma completa bagunça. Com uma vida virada do avesso. Naquele domingo, especificamente, ainda me sentia anestesiada.... Fora do corpo, fora do mundo. Fora do mundo que tinha sido meu durante tantos e tantos anos. Foi naquele domingo, no meio da bagunça da minha vida, que eu esqueci do aniversário dele. Ele vinha sendo um amigo querido. Tinha me ajudado a segurar a onda uns meses antes. Foi um ombro onde eu chorei muitas lágrimas virtuais. Mas naquele domingo, naquela bagunça, eu não lembrei. Nem quisera ele que eu tivesse lembrado. Eu não tinha nada de bom pra transmitir a ninguém naquele momento.
Aí, no dia seguinte, o estalo: "PQP, esqueci o aniversário dele. E agora, mando parabéns atrasado? Talvez ele nem tenha notado meu esquecimento, afinal, eu ando tão ausente... Ah, mas boa educação foi algo que meus pais me ensinaram bem...". Lá fui eu, singelamente mandei um: "Puuuutz era ontem né? Teu aniver.... Aiaiaiaiai lembrei nesse exato momento! Posso desejar tudo de bom 3x pra ti não ficar chateado comigo?"
E foi assim que começou. Ou que recomeçou. Já tínhamos ensaiado uma amizade bacana uns meses antes. Naquela altura da história eu ainda sabia pouco sobre ele, mas, mesmo assim, ele sempre me tratou tão bem, com tanto carinho e respeito, que eu não tinha porque ficar usando meu escudo anti-social, nem meu manto da invisibilidade que eu tanto gostava de usar nessas horas de confusão.
Eu dei uma chance praquela amizade. Naturalmente, as coisas foram evoluindo, a vontade de papear sobre tudo a toda hora foi aumentando, até que, com minha falta de vergonha na cara, habitual de quando eu me jogo de cabeça, convidei ele pra passar um fim de semana no Rio.
Quase um ano já se passou. E agora não houve nenhuma chance de eu esquecer do aniversário dele. Agora ele é uma parte muito grande da minha vida. O afã de chegar ao fim de semana é o que me motiva a atravessar a semana. Tudo pra poder passar aquelas horas, que passam tão rápido, com ele.
Agora eu já posso dizer que conheço ele um pouco. Um pouco bastante! Ele é uma pessoa incrível. Sincero. Íntegro. Inteligente. Prestativo. Carinhoso. É a pessoa com quem eu adoro fazer planos. Pensar no futuro. Planejar a vida. Ele cuida de mim. Ele me acalma. Ele me fez deixar de lado a Clarissa auto-suficiente, a self made woman.
É ele que eu quero fazer muito feliz, só pra poder retribuir um pouco o bem que ele faz por mim.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Free as a bird
É engraçado como acontece esse processo de uma nova tatuagem. De repente surge aquela "coceirinha". Pronto: vou fazer outra tatuagem! Desta vez, começou com uma vaga noção: alguma coisa sobre liberdade. Finalmente, eu sabia que não seria uma palavra. É, chegou a hora do meu primeiro desenho. E, é claro, eu queria algo grande e ousado. Mas delicado. Preto e cinza. Nas costas. Atravessando, de um lado a outro. Liberdade... asas? Não, muito clichê!
Pensa, pensa, pensa....
E, um belo dia: é isso! Andorinhas! Várias! Só a silhueta, preta. Saindo de uma gaiola!
Assim, como se fosse uma certeza de toda uma vida, a ideia ganha forma, tão clara como se sempre estivesse ali!
Essa coisa toda do tema "liberdade" veio durante o processo de elaboração da minha dissertação. Por dois pontos de vista. O primeiro, mais óbvio, é a iminente liberdade adquirida terminando o mestrado. Nada mais de aulas à noite. Nada mais de finais de semana estudando, nem mais a angústia de não saber se darei conta, nem de achar que vou me decepcionar e decepcionar os outros. Enfim, um compromisso a menos.
O outro, menos visível e mais inesperado, é a liberdade que o conhecimento proporciona. Eu tive tantos momentos de epifania e iluminação ao longo de todo esse processo, que eu sinto que todo um novo mundo se abriu pra mim. Além disso, tem o viés da superação pessoal. O assunto que eu escolhi era uma grande barreira pra mim. E agora, sinto que, se eu consegui superar isso, aprender habilidades completamente novas e mudar minha área de atuação profissional, nada me segura! Hoje me sinto muito mais confiante e capaz.
Mas não é só isso. Isso é só um pedaço. Hoje me sinto plena como profissional, mas também como pessoa. E isso tudo é liberdade. Foi isso que eu marquei na pele. O meu renascimento. Minha volta por cima.
Eu saí da gaiola. E agora quero voar!
Esta lindíssima foto é claro que foi feita pelo meu fotógrafo preferido Régis Arima Junior.
Pensa, pensa, pensa....
E, um belo dia: é isso! Andorinhas! Várias! Só a silhueta, preta. Saindo de uma gaiola!
Assim, como se fosse uma certeza de toda uma vida, a ideia ganha forma, tão clara como se sempre estivesse ali!
Essa coisa toda do tema "liberdade" veio durante o processo de elaboração da minha dissertação. Por dois pontos de vista. O primeiro, mais óbvio, é a iminente liberdade adquirida terminando o mestrado. Nada mais de aulas à noite. Nada mais de finais de semana estudando, nem mais a angústia de não saber se darei conta, nem de achar que vou me decepcionar e decepcionar os outros. Enfim, um compromisso a menos.
O outro, menos visível e mais inesperado, é a liberdade que o conhecimento proporciona. Eu tive tantos momentos de epifania e iluminação ao longo de todo esse processo, que eu sinto que todo um novo mundo se abriu pra mim. Além disso, tem o viés da superação pessoal. O assunto que eu escolhi era uma grande barreira pra mim. E agora, sinto que, se eu consegui superar isso, aprender habilidades completamente novas e mudar minha área de atuação profissional, nada me segura! Hoje me sinto muito mais confiante e capaz.
Mas não é só isso. Isso é só um pedaço. Hoje me sinto plena como profissional, mas também como pessoa. E isso tudo é liberdade. Foi isso que eu marquei na pele. O meu renascimento. Minha volta por cima.
Eu saí da gaiola. E agora quero voar!
"Gente que mantém
pássaros na gaiola
tem bom coração.
Os pássaros estão a salvo
de qualquer salvação."
Paulo Leminski
Esta lindíssima foto é claro que foi feita pelo meu fotógrafo preferido Régis Arima Junior.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Eu também morri um pouco ontem
Eu sei, eu sei... Todo mundo está falando sobre isso. Todo mundo já falou sobre isso. Mas o que me leva a escrever hoje é que eu não consigo parar de pensar em tudo o que aconteceu ontem, naquela tragédia sem fim em Santa Maria. Dizem que os gaúchos são muito arraigados e bairristas. Pode ser por isso sim. Essa raiz é muito forte, tanto pelo orgulho de ser gaúcha, como pela comoção pela tristeza que está assolando aquelas terras.
Mais do que isso, acho que eu (assim como todos que já foram universitários) olhei pra tudo o que aconteceu com olhos de "poderia ter sido comigo". Assim como minha mãe e meu pai devem ter olhado com olhos de "poderia ter sido com minha filha". E é esta triste empatia que nos deixa ainda mais perplexos e paralisados. Quantas festas dessas eu não frequentei durante meus anos de faculdade? É muito triste, muito chocante e devastador. Ainda mais quando acontece com gente jovem, com tudo pela frente. É tanta injustiça. É tanta dor. Eles não estavam fazendo nada de errado ou de extraordinário. Estavam se divertindo e bebendo, como qualquer um de nós, nessa época que geralmente é marcada pelas amizades, pelas farras, pelas festas.
Eu me sinto muito tocada com todos estes fatos. Sequer consigo imaginar a dor destas famílias que perderam às vezes não um, mas dois filhos, primos, namorados. Perderam aqueles nas quais mais apostavam. O futuro.
Eu costumo acreditar que ninguém morre antes da hora, nem dura mais do que aquilo que deve durar. Mas em tragédias como estas eu me pergunto: será que era mesmo a hora de tanta gente, assim, ao mesmo tempo?
Eu sei também que estas tragédias servem pra todos nós, que continuamos neste mundo, colocarmos nossas vidas em perspectiva. E ver que tudo aquilo (ou boa parte) do que nos consome simplesmente não vale a pena. E ver o quão abençoados somos por acordarmos para mais um dia. Não acho que devemos viver num assombro de que este pode ser o último dia (apesar de que, ao menos uma vez, e, uma única vez, isso será verdade). Só acho que temos que fazer valer a pena a nossa passagem pela terra. Nem que seja ao menos para honrar a vida destes que se foram cedo demais e não tiveram a chance de escrever seu próprio destino.
Mais do que isso, acho que eu (assim como todos que já foram universitários) olhei pra tudo o que aconteceu com olhos de "poderia ter sido comigo". Assim como minha mãe e meu pai devem ter olhado com olhos de "poderia ter sido com minha filha". E é esta triste empatia que nos deixa ainda mais perplexos e paralisados. Quantas festas dessas eu não frequentei durante meus anos de faculdade? É muito triste, muito chocante e devastador. Ainda mais quando acontece com gente jovem, com tudo pela frente. É tanta injustiça. É tanta dor. Eles não estavam fazendo nada de errado ou de extraordinário. Estavam se divertindo e bebendo, como qualquer um de nós, nessa época que geralmente é marcada pelas amizades, pelas farras, pelas festas.
Eu me sinto muito tocada com todos estes fatos. Sequer consigo imaginar a dor destas famílias que perderam às vezes não um, mas dois filhos, primos, namorados. Perderam aqueles nas quais mais apostavam. O futuro.
Eu costumo acreditar que ninguém morre antes da hora, nem dura mais do que aquilo que deve durar. Mas em tragédias como estas eu me pergunto: será que era mesmo a hora de tanta gente, assim, ao mesmo tempo?
Eu sei também que estas tragédias servem pra todos nós, que continuamos neste mundo, colocarmos nossas vidas em perspectiva. E ver que tudo aquilo (ou boa parte) do que nos consome simplesmente não vale a pena. E ver o quão abençoados somos por acordarmos para mais um dia. Não acho que devemos viver num assombro de que este pode ser o último dia (apesar de que, ao menos uma vez, e, uma única vez, isso será verdade). Só acho que temos que fazer valer a pena a nossa passagem pela terra. Nem que seja ao menos para honrar a vida destes que se foram cedo demais e não tiveram a chance de escrever seu próprio destino.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Meant to be!
É muita coisa em pouco tempo....
Pois é, depois de um longo silêncio, hoje me permito escrever. E por que "permito"? Porque já tem um tempo que eu não consigo admitir gastar meu escasso tempo e minha ainda mais escassa energia com nada que não seja: trabalho, mestrado e finais de semana de ponte aérea. Tá difícil parar. Fim de ano já costuma ser uma correria danada. E este não está diferente. Está bem mais intenso, aliás. Mas hoje uma conversa já no fim do dia me deixou muito feliz, e me inspirou.
O que me traz aqui hoje, pra escrever nesse blog que já é um antigo companheiro, é a coisa mais clichê que existe nesse mundo, em dezembro: retrospectiva. Pois que atire a primeira pedra quem não chega nessa época fazendo um balanço de todos os acontecimentos do último ano. Então essa é a minha(e o blog é meu, eu escrevo o que quiser nele). Sou previsível? Foda-se!
E eu começo dizendo, que, olha, há um ano eu tava na merda. Merda em negrito e sublinhado. Porque não era pouca merda. A minha vida foi desmoronando de tal maneira na segunda metade de 2011 que não teve um setor que não foi afetado. Eu havia me afastado da minha família, dos meus amigos mais próximos, de todo mundo que importava. Estava extremamente infeliz e insatisfeita no trabalho, tinha acabado de perder uma promoção e não enxergava perspectivas de crescimento ou de mudança. Estava chutando o balde. Tomei um pé na bunda (que, apesar de ter sido de uma maneira muito elegante, educada e cheia de consideração, não deixou de ser um pé na bunda) e estava me sentindo sozinha como nunca antes. E eu só comecei a perceber toda a magnitude da minha situação quando um problema de saúde na família (que hoje já está resolvido) me deu um chacoalhão tão, mas tão grande, que eu caí em mim de uma vez só. E o tombo foi feio. Foi doloroso. Acordei e estava vivendo no meio de um pesadelo. Mas, como de costume, não deixei a peteca cair. O que me movia era a única coisa de bom que tinha restado naquela confusão toda: meu mestrado. Eu tinha uma gana infinita de estudar, aprender, tirar boas notas. E isto me sustentou durante aquele último mês de 2011, até que eu pude ir pro RS, chorar no colo da minha família. E eu chorei muito na virada do ano. Acho que foi o reveillon mais triste que já passei. Tinha um vazio enorme dentro de mim, e eu não sabia nem por onde começar a preenche-lo.
Veio 2012. Poucas expectativas. E aí que é bom: quando você não espera nada da vida, é que ela mais te surpreende, porque qualquer coisa que acontece já é muito. Mas vocês acham que já vamos pro final feliz? Nã, nã, nã. Pastei muito em 2012 antes de chegar neste 5 de dezembro. Eu achei que a vida estava me recompensando quando tive um convite no trabalho. A mudança de área era tudo o que eu queria. E eu agarrei aquela oportunidade com toda minha força. Foi a minha tábua de salvação.
Só que eu tive que abrir mão de muita coisa em 2012. Tive que romper muitas coisas em 2012. Primeiro foi o fim de uma relação de dez anos. Sem brigas, sem ressentimentos, nem arrependimentos. Mas nem por isso foi fácil. Depois foi o fim trágico e abrupto de uma relação de pouco mais de 4 meses (mas que hoje não vou aprofundar isso aqui, porque a morte da minha cã ainda não é uma coisa tranquila pra mim e hoje não é dia de tristeza). Na semana seguinte roubaram minha bolsa, depois caí de cama com suspeita de pneumonia. Perdi um tio muito querido, que era meu ídolo da infância. Tive que lidar com muita burocracia sozinha. Gastei muito dinheiro pra consertar tudo que tinha que ser consertado. Era porrada de todo lado. Dessas coisas que, quando acontecem, não conseguimos entender. Por quê? Só o que eu conseguia pensar era "por quê? por que eu? por que comigo?". Tem algumas coisas que realmente não são feitas para serem entendidas, e, muitas vezes (mais até do que gostaríamos), o tempo do universo não é o nosso tempo. "Quero hoje, quero agora, quero que tudo se resolva". Mas não é assim que funciona. Hoje eu lembro daqueles dias horríveis em que eu chegava no trabalho mas não conseguia ir pra minha sala. Ligava pros meus pais chorando e pedia ajuda. Achava que não ia dar conta. Penso no dia do meu aniversário, quando caiu uma tempestade. Era tempestade lá fora e aqui dentro. Eu achei que não ia mais ter sol pra mim por muito tempo. Foi difícil não deixar a peteca cair. Foi bem difícil.
Mas apesar da solidão que eu senti muitas noites em casa, fui descobrindo que não estava sozinha de verdade. Eu pedi perdão às pessoas que tinha magoado e, pra minha sorte, elas me aceitaram de volta. Não posso negar que muitos braços se estenderam quando eu estava caída.
Devagarinho fui retomando o gosto pelo mundo. Me abri pra vida e, de uns tempos pra cá, tenho recebido o quinhão de coisas boas que o universo estava me devendo. Descobri o amor outra vez, e estou tendo novamente a incrível chance de me apaixonar todos os dias. E agora é diferente de tudo que eu já vivi. É uma relação adulta, que faz eu me sentir segura, que me incentiva, que puxa minha orelha quando eu tenho preguiça de trabalhar na minha tese. Alguém com quem eu tenho planos. Que em um pouco mais de meio ano já me viu em todos estados possíveis: feliz, explodindo de felicidade, angustiada, ansiosa, irritada, doente, desfigurada de tanto chorar. Não preciso usar nenhuma máscara. E isso é tão bom! É uma euforia, mas ao mesmo tempo é um conforto, uma paz.
Tenho vivido momentos excelentes no trabalho. Adoro o que eu faço, estou aprendendo numa velocidade que não julgava possível, estou aplicando o que aprendi no mestrado. E quando você faz seu trabalho com afinco, quando você acredita naquilo que faz, o reconhecimento vem. Também fiz as pazes com minha dissertação (que eu cheguei a cogitar em largar), e agora estou conseguindo ter disciplina pra trabalhar nela.
Devo estar esquecendo de alguma coisa, porque se tem algo que não faltou pra mim em 2012 foi emoção! Minha vida passou por uma dureza tão grande que ganhei do pessoal do trabalho um patuá pra espantar as energias ruins. Por fim, acho que funcionou. No final de 2011, o sentimento que me inundava era a solidão. Agora, depois de tudo o que eu passei este ano, o que eu sinto é uma imensa gratidão. Agora já posso olhar pra trás e dizer que entendo um pouco do que me aconteceu.
E, apesar de correr o risco de ser injusta com alguém, e de saber que muitas das pessoas não lerão este texto, quero agradecer nominalmente algumas pessoas que fizeram o meu ano: Claudete, Faustino, Rosana, Claudio, Matiko, Régis, Mariana, Livia, Cristina, Joanna, Fernanda, Kely, Márcia, Julia, Frias, André, Rafael, Bianca, Marco Antônio, Dany, Samantha.
Obrigada!
Pra acabar, eu acho que nenhuma frase resume melhor 2012 do que "meant to be!" (ou, se preferirem: "era pra ser!").
E a foto linda que ilustra este post é claro que é do Régis Arima Junior.
Pois é, depois de um longo silêncio, hoje me permito escrever. E por que "permito"? Porque já tem um tempo que eu não consigo admitir gastar meu escasso tempo e minha ainda mais escassa energia com nada que não seja: trabalho, mestrado e finais de semana de ponte aérea. Tá difícil parar. Fim de ano já costuma ser uma correria danada. E este não está diferente. Está bem mais intenso, aliás. Mas hoje uma conversa já no fim do dia me deixou muito feliz, e me inspirou.
O que me traz aqui hoje, pra escrever nesse blog que já é um antigo companheiro, é a coisa mais clichê que existe nesse mundo, em dezembro: retrospectiva. Pois que atire a primeira pedra quem não chega nessa época fazendo um balanço de todos os acontecimentos do último ano. Então essa é a minha
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| tempo de olhar pra trás... |
E eu começo dizendo, que, olha, há um ano eu tava na merda. Merda em negrito e sublinhado. Porque não era pouca merda. A minha vida foi desmoronando de tal maneira na segunda metade de 2011 que não teve um setor que não foi afetado. Eu havia me afastado da minha família, dos meus amigos mais próximos, de todo mundo que importava. Estava extremamente infeliz e insatisfeita no trabalho, tinha acabado de perder uma promoção e não enxergava perspectivas de crescimento ou de mudança. Estava chutando o balde. Tomei um pé na bunda (que, apesar de ter sido de uma maneira muito elegante, educada e cheia de consideração, não deixou de ser um pé na bunda) e estava me sentindo sozinha como nunca antes. E eu só comecei a perceber toda a magnitude da minha situação quando um problema de saúde na família (que hoje já está resolvido) me deu um chacoalhão tão, mas tão grande, que eu caí em mim de uma vez só. E o tombo foi feio. Foi doloroso. Acordei e estava vivendo no meio de um pesadelo. Mas, como de costume, não deixei a peteca cair. O que me movia era a única coisa de bom que tinha restado naquela confusão toda: meu mestrado. Eu tinha uma gana infinita de estudar, aprender, tirar boas notas. E isto me sustentou durante aquele último mês de 2011, até que eu pude ir pro RS, chorar no colo da minha família. E eu chorei muito na virada do ano. Acho que foi o reveillon mais triste que já passei. Tinha um vazio enorme dentro de mim, e eu não sabia nem por onde começar a preenche-lo.
Veio 2012. Poucas expectativas. E aí que é bom: quando você não espera nada da vida, é que ela mais te surpreende, porque qualquer coisa que acontece já é muito. Mas vocês acham que já vamos pro final feliz? Nã, nã, nã. Pastei muito em 2012 antes de chegar neste 5 de dezembro. Eu achei que a vida estava me recompensando quando tive um convite no trabalho. A mudança de área era tudo o que eu queria. E eu agarrei aquela oportunidade com toda minha força. Foi a minha tábua de salvação.
Só que eu tive que abrir mão de muita coisa em 2012. Tive que romper muitas coisas em 2012. Primeiro foi o fim de uma relação de dez anos. Sem brigas, sem ressentimentos, nem arrependimentos. Mas nem por isso foi fácil. Depois foi o fim trágico e abrupto de uma relação de pouco mais de 4 meses (mas que hoje não vou aprofundar isso aqui, porque a morte da minha cã ainda não é uma coisa tranquila pra mim e hoje não é dia de tristeza). Na semana seguinte roubaram minha bolsa, depois caí de cama com suspeita de pneumonia. Perdi um tio muito querido, que era meu ídolo da infância. Tive que lidar com muita burocracia sozinha. Gastei muito dinheiro pra consertar tudo que tinha que ser consertado. Era porrada de todo lado. Dessas coisas que, quando acontecem, não conseguimos entender. Por quê? Só o que eu conseguia pensar era "por quê? por que eu? por que comigo?". Tem algumas coisas que realmente não são feitas para serem entendidas, e, muitas vezes (mais até do que gostaríamos), o tempo do universo não é o nosso tempo. "Quero hoje, quero agora, quero que tudo se resolva". Mas não é assim que funciona. Hoje eu lembro daqueles dias horríveis em que eu chegava no trabalho mas não conseguia ir pra minha sala. Ligava pros meus pais chorando e pedia ajuda. Achava que não ia dar conta. Penso no dia do meu aniversário, quando caiu uma tempestade. Era tempestade lá fora e aqui dentro. Eu achei que não ia mais ter sol pra mim por muito tempo. Foi difícil não deixar a peteca cair. Foi bem difícil.
Mas apesar da solidão que eu senti muitas noites em casa, fui descobrindo que não estava sozinha de verdade. Eu pedi perdão às pessoas que tinha magoado e, pra minha sorte, elas me aceitaram de volta. Não posso negar que muitos braços se estenderam quando eu estava caída.
Devagarinho fui retomando o gosto pelo mundo. Me abri pra vida e, de uns tempos pra cá, tenho recebido o quinhão de coisas boas que o universo estava me devendo. Descobri o amor outra vez, e estou tendo novamente a incrível chance de me apaixonar todos os dias. E agora é diferente de tudo que eu já vivi. É uma relação adulta, que faz eu me sentir segura, que me incentiva, que puxa minha orelha quando eu tenho preguiça de trabalhar na minha tese. Alguém com quem eu tenho planos. Que em um pouco mais de meio ano já me viu em todos estados possíveis: feliz, explodindo de felicidade, angustiada, ansiosa, irritada, doente, desfigurada de tanto chorar. Não preciso usar nenhuma máscara. E isso é tão bom! É uma euforia, mas ao mesmo tempo é um conforto, uma paz.
Tenho vivido momentos excelentes no trabalho. Adoro o que eu faço, estou aprendendo numa velocidade que não julgava possível, estou aplicando o que aprendi no mestrado. E quando você faz seu trabalho com afinco, quando você acredita naquilo que faz, o reconhecimento vem. Também fiz as pazes com minha dissertação (que eu cheguei a cogitar em largar), e agora estou conseguindo ter disciplina pra trabalhar nela.
Devo estar esquecendo de alguma coisa, porque se tem algo que não faltou pra mim em 2012 foi emoção! Minha vida passou por uma dureza tão grande que ganhei do pessoal do trabalho um patuá pra espantar as energias ruins. Por fim, acho que funcionou. No final de 2011, o sentimento que me inundava era a solidão. Agora, depois de tudo o que eu passei este ano, o que eu sinto é uma imensa gratidão. Agora já posso olhar pra trás e dizer que entendo um pouco do que me aconteceu.
E, apesar de correr o risco de ser injusta com alguém, e de saber que muitas das pessoas não lerão este texto, quero agradecer nominalmente algumas pessoas que fizeram o meu ano: Claudete, Faustino, Rosana, Claudio, Matiko, Régis, Mariana, Livia, Cristina, Joanna, Fernanda, Kely, Márcia, Julia, Frias, André, Rafael, Bianca, Marco Antônio, Dany, Samantha.
Obrigada!
Pra acabar, eu acho que nenhuma frase resume melhor 2012 do que "meant to be!" (ou, se preferirem: "era pra ser!").
E a foto linda que ilustra este post é claro que é do Régis Arima Junior.
"É bom olhar pra trás e admirar a vida que soubemos fazer
É bom olhar pra frente, é bom nunca é igual
Olhar, beijar e ouvir, cantar um novo dia nascendo
É bom e é tão diferente"
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Coisas boas acontecem para pessoas boas
"I'm a good man with a good heart
Had a tough time, got a rough start
And I finally learned to let it go
Now I'm right here, and I'm right now
And I'm open, knowing somehow
That my shadow days are over
My shadow days are over now"
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Dia de fúria
Hoje não.
Eu tenho plena consciência de que hoje eu posso estar sofrendo agudamente da ação dos meus hormônios sobre meu humor e minha percepção (vejam, poderia ser pior: eu poderia estar grávida), mas hoje, sim, justamente hoje, decretei que não dá mais.
Se isso me alivia? Não, não me alivia, porque os problemas todos continuarão lá, amanhã – ou hoje ainda, não me deixando dormir ou perturbando meu sono – esperando para serem resolvidos. Acontece que agora eu e meus hormônios destemperados atingimos um limiar. O limiar do “não aguento mais”, do “fundo do poço”, do “saco cheio”.
Sim, problemas existem, todo mundo enfrenta e dizem que não existe felicidade, apenas momentos felizes, e bla bla bla, mas eu acho que deveria haver algum tipo de limite praquilo que a pessoa pode aturar em um mês, ou em uma semana. Uma espécie de cota de perrengue (não tá na moda cota pra tudo? Acho que vou criar minha própria marcha em prol dessas cotas. All in). Várias pessoas me disseram que ninguém recebe um fardo maior do que consegue carregar. Sabe o que eu tenho a dizer a essas pessoas?
BULLSHIT!
Desde quando existe comunismo que funcione? Vai funcionar na divisão de problemas que eu sou capaz de resolver ao mesmo tempo? E quem é capaz de saber se eu tenho musculatura pra absorver tudo isso e mais um pouco? Então se cada um sabe da sua vida, e da minha sei eu, e eu estou falando algo muito, muito sério: CANSEI DESSA MERDA TODA!
Isso sem contar com a cereja do bolo: as pessoas que aparecem (e as que já estavam lá, mas resolvem oportunamente se manifestar nesse momento) com fatos e argumentos e histórias nada razoáveis. Pior aquelas que, além disso tudo, ainda querem me convencer de que não é nada. Não é nada? Então vem aqui, segura minha onda, assume o meu trabalho, escreve minha dissertação do mestrado, paga as minhas contas, tudo isso sem documentos, sem cartões, se recuperando de uma crise de asma, com o pé nas costas, assoviando e chupando cana!!
Em suma:
- preciso levar minha vida adiante, resolver as coisas, porque de mim ninguém tem peninha nem dá desconto;
- eu vou fazer o que tiver que ser feito, o mundo gostando disso ou não;
- se eu não puder, não vou esperar por ninguém;
- se você não vai me ajudar, então faz o favor de não ficar no meu caminho feito um peso de papel.
Quer que eu desenhe? Lá vai: na minha vida, eu preciso muito mais do que gente de boa vontade. Eu preciso de gente com ATITUDE. Senão caímos ad infinitum naquele papo de eu ser um rolo compressor – ou um “trator”, como carinhosamente já fui chamada. Eu não sou nada disso, eu só estou tentando resolver as minhas coisas e cuidar dos meus interesses, porque isso ninguém faz por mim.
Got it?
Ah, e antes que alguém queira ficar ofendidinho, esse desabafo não é indireta pra ninguém específico. Mas se te serviu o chapéu, faça bom uso dele.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Vamos terminar bem o dia
Já que hoje estou blogando como se não houvesse amanhã, vai mais uma música linda, dica da querida Carol Neves.
Felicidade
Marcelo Jeneci
Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz.
Sem tirar o ar, sem se mexer, sem desejar como antes sempre quis.
Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
Quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar.
Lembrará os dias que você deixou passar sem ver a luz.
Se chorar, chorar é vão porque os dias vão pra nunca mais.
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e depois dançar, na chuva quando a chuva vem.
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e dançar.
Dançar na chuva quando a chuva vem.
Tem vez que as coisas pesam mais do que a gente acha que pode aguentar.
Nessa hora fique firme, pois tudo isso logo vai passar.
Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
Quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar.
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e depois dançar, na chuva quando a chuva vem.
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e dançar.
/Dançar na chuva quando a chuva vem.
Pra espantar a tristeza
Tem só mais três coisas que eu quero falar sobre minha cã:
- pra mim (e pra várias pessoas que também notaram isso) ela veio pra minha vida pra cumprir uma missão. E quando essa missão terminou, ela foi embora, se retirou. É difícil, dentro da nossa cultura, aceitar a morte. Mas nem sempre o nosso tempo é o tempo do universo, e, se ela foi embora agora, é porque tinha que ir.
- quero agradecer imensamente às pessoas que ajudaram naquele dia tão difícil: o time de futebol que tentou cercar, a menina que pegou a Carminha no asfalto, o guri que nos deu a garrafa d'água, o taxista que não hesitou em nos levar pra clínica, a toda equipe de enfermeiros e veterinários que fizeram de tudo pra salvá-la, a enfermeira que cuidou do Régis (que ficou todo arrebentado) no hospital, a Mari que prontamente providenciou a doação das coisinhas da Carminha pra ajudar outro cãozinho de rua e a todos os amigos que se solidarizaram com este momento difícil.
- escutei alguns comentários do tipo "tudo isso por causa de um cachorro?". Sobre isso, só uma constatação: não confio em quem não gosta de bicho.
Pra Sonhar (Marcelo Jeneci )
Quando te vi passar fiquei paralisado
Tremi até o chão como um terremoto no Japão
Um vento, um tufão
Uma batedeira sem botão
Foi assim viu
Me vi na sua mão
Perdi a hora de voltar para o trabalho
Voltei pra casa e disse adeus pra tudo que eu conquistei
Mil coisas eu deixei
Só pra te falar
Largo tudo
Se a gente se casar domingo
Na praia, no sol, no mar
Ou num navio a navegar
Num avião a decolar
Indo sem data pra voltar
Toda de branco no altar
Quem vai sorrir?
Quem vai chorar?
Ave maria, sei que há
Uma história pra sonhar
Pra sonhar
O que era sonho se tornou realidade
De pouco em pouco a gente foi erguendo o nosso próprio trem,
Nossa Jerusalém,
Nosso mundo, nosso carrossel
Vai e vem vai
E não para nunca mais
De tanto não parar a gente chegou lá
Do outro lado da montanha onde tudo começou
Quando sua voz falou:
Pra onde você quiser eu vou
Largo tudo
Se a gente se casar domingo
Na praia, no sol, no mar
Ou num navio a navegar
Num avião a decolar
Indo sem data pra voltar
Toda de branco no altar
Quem vai sorrir?
Quem vai chorar?
Ave maria, sei que há
Uma história pra contar
Domingo
Na praia, no sol, no mar
Ou num navio a navegar
Num avião a decolar
Indo sem data pra voltar
Toda de branco no altar
Quem vai sorrir?
Quem vai chorar?
Ave maria, sei que há
Uma história pra contar
Pra contar
Só que você foi embora cedo demais...
Há dias eu venho pensando em escrever aqui no blog, mas andava me faltando coragem. Eu sabia que no dia em que resolvesse escrever aqui seria impossível conter as lágrimas (e eu estava certa). Só que a vida tem dessas coisas (a minha tem várias dessas coisas) e de repente o corpo entra em pane e te obriga a parar. E te obriga a pensar em tudo. Te obriga a encarar. Então aqui estou eu.
Não faz nem duas semanas, está tudo ainda muito recente e doloroso ainda. Acredito que a maioria das pessoas que me conhecem sabem do que eu estou falando. Há poucos dias eu perdi um serzinho muito importante na minha vida, minha cã, a Carminha.
Foi trágico, foi repentino, foi desesperador, mas eu não quero falar aqui de como tudo aconteceu, até porque não é com essa imagem triste que eu vou lembrar do meu anjinho canino. Prefiro falar da nossa história e de tudo que eu senti e pude viver com ela nos poucos meses que ficamos juntas. E do que eu gostaria de "dizer" pra ela agora, porque, maluquice da minha cabeça, ou não, eu sinto ela aqui comigo ainda. Seria algo mais ou menos assim:
"Tudo começou aquele dia na Suipa, quando, no meio de um monte de cães saltadores, latidores, e pedindo desesperadamente "me adote", você apareceu de relance e se escondeu debaixo da bancada. Ali eu tive certeza: 'é ela!'. Você era a cãzinha mais tímida daquele canil, e seu olhar assustado só me deixava com mais vontade de te pegar no colo e te levar pra casa. Você já veio batizada, e, todo mundo abria um grande sorriso pro seu nome incomum 'Carminha'. Mas você tinha cara de Carminha e assim ficou.
Chegamos em casa, te dei um banho frio e você logo escolheu seu lugarzinho debaixo do sofá. Logo no primeiro dia sozinha você já fez sua primeira (e única) grande bagunça. Mas como ficar triste com você, tadinha, trancada numa cozinha o dia inteiro?
Foi aí que você mudou pra sacada e ficou muito mais tranquila e feliz, com sua nova casinha que foi seu porto seguro sempre.
E, olha Carminha, você era uma cãzinha difícil! Desconfiada... Foram 3 semanas até você confiar em mim, abanar seu rabão (que era quase maior que você!) e começar a me seguir pela casa. Mas depois disso, você virou minha "cãopanheirinha", ao ponto de, até hoje, eu sentir você se enroscando nas minhas pernas pela casa.
E o quanto você é querida por todo mundo? Não havia uma pessoa que não se encantasse com sua carinha de cão sem dono, aquele olharzinho de baixo com as orelhinhas pra trás. Todo mundo que conheceu e conviveu com você se apaixonou pelo seu temperamento assustado, que depois de um tempo virava denguinho.
Aliás, seu denguinho rende um capítulo a parte! Meu Deus, que cã mais dengosa, você era. Vinha toda rebolativa de manhã cedinho, ainda meio dormindo, e quando eu chegava pertinho, você já se virava pra eu acariciar sua barriguinha rosada. Depois eu ia pro banho, você me esperava deitada na porta do banheiro. E quando eu ia pro quarto (onde você, muito obediente, nunca entrava, só quando era convidada), você ficava ali rebolando e ganindo como quem diz 'Mamãe, você tá demoraaaando!'.
Mas a maior alegria de todas era chegar em casa, e fazer a nossa festinha canina! A gente rolava no chão, corria pelo apartamento, você subia em cima de mim e me lambia o rosto. Isso quando não me dava uma patada que fazia meu óculos voar! Esse era o nosso momento, só meu e seu.
Outra felicidade imensa era levar você pra passear no aterro. Você ficava toda serelepe e faceira, porque lá era o seu quintal. Ah, e quando você ganhou sua toquinha? Eu fiquei morrendo de ciúmes, porque achava que você amava mais sua toca que eu (e me desfazer da sua toquinha foi a parte mais difícil...).
Às vezes eu pensava no quanto você me achava besta por te colocar um sem número de apelidos, todos sem sentido: Bizunga, Bizulunga, Buzunguinha, Rabocóptero, Bizunguitos sabor canino (?), Dengulosa, e por aí vai...
Olha, meu anjinho canino, eu espero que você tenha tido uma vida feliz comigo. Espero ter te dado dignidade e tranqulidade. Porque quando eu te adotei, foi pensando em fazer um bem pra você. Mas o que eu não sabia é que estava fazendo um bem muito maior pra mim. Te ter na minha vida, ainda que por tão pouco tempo, foi uma lição e tanto.
Você dependia inteiramente de mim, e foi a primeira vez em que vivi uma relação assim. E eu sempre quis te dar o melhor de mim, ser uma mãezona, ainda que não te deixasse subir no sofá ou entrar no meu quarto. (Aliás, queria que você soubesse, ainda que seja tarde demais, que, enquanto você estava lá na clínica lutando pra viver, eu prometi que se você não fosse embora eu te deixaria subir no sofá. E entrar no meu quarto. E subir na minha cama. E dormir comigo. Por favor me perdoe, eu sei que eu devia ter feito tudo isso enquanto eu tive a chance)
Minha buzunga, me desculpe se não fui a melhor mãe-de-canino do mundo, se te deixei sozinha em casa enquanto eu trabalhava. Mas eu tenho a certeza de que te dei o maior amor do mundo, mas, muito mais do que isso, eu aprendi o que é o amor puro, aquele que não exige nada em troca. E esse foi você quem me deu.
Muito obrigada por tudo.
Vai em paz."

Fomos felizes. Minha cã e eu.
Não faz nem duas semanas, está tudo ainda muito recente e doloroso ainda. Acredito que a maioria das pessoas que me conhecem sabem do que eu estou falando. Há poucos dias eu perdi um serzinho muito importante na minha vida, minha cã, a Carminha.
Foi trágico, foi repentino, foi desesperador, mas eu não quero falar aqui de como tudo aconteceu, até porque não é com essa imagem triste que eu vou lembrar do meu anjinho canino. Prefiro falar da nossa história e de tudo que eu senti e pude viver com ela nos poucos meses que ficamos juntas. E do que eu gostaria de "dizer" pra ela agora, porque, maluquice da minha cabeça, ou não, eu sinto ela aqui comigo ainda. Seria algo mais ou menos assim:
"Tudo começou aquele dia na Suipa, quando, no meio de um monte de cães saltadores, latidores, e pedindo desesperadamente "me adote", você apareceu de relance e se escondeu debaixo da bancada. Ali eu tive certeza: 'é ela!'. Você era a cãzinha mais tímida daquele canil, e seu olhar assustado só me deixava com mais vontade de te pegar no colo e te levar pra casa. Você já veio batizada, e, todo mundo abria um grande sorriso pro seu nome incomum 'Carminha'. Mas você tinha cara de Carminha e assim ficou.
Chegamos em casa, te dei um banho frio e você logo escolheu seu lugarzinho debaixo do sofá. Logo no primeiro dia sozinha você já fez sua primeira (e única) grande bagunça. Mas como ficar triste com você, tadinha, trancada numa cozinha o dia inteiro?
Foi aí que você mudou pra sacada e ficou muito mais tranquila e feliz, com sua nova casinha que foi seu porto seguro sempre.
E, olha Carminha, você era uma cãzinha difícil! Desconfiada... Foram 3 semanas até você confiar em mim, abanar seu rabão (que era quase maior que você!) e começar a me seguir pela casa. Mas depois disso, você virou minha "cãopanheirinha", ao ponto de, até hoje, eu sentir você se enroscando nas minhas pernas pela casa.
E o quanto você é querida por todo mundo? Não havia uma pessoa que não se encantasse com sua carinha de cão sem dono, aquele olharzinho de baixo com as orelhinhas pra trás. Todo mundo que conheceu e conviveu com você se apaixonou pelo seu temperamento assustado, que depois de um tempo virava denguinho.
Aliás, seu denguinho rende um capítulo a parte! Meu Deus, que cã mais dengosa, você era. Vinha toda rebolativa de manhã cedinho, ainda meio dormindo, e quando eu chegava pertinho, você já se virava pra eu acariciar sua barriguinha rosada. Depois eu ia pro banho, você me esperava deitada na porta do banheiro. E quando eu ia pro quarto (onde você, muito obediente, nunca entrava, só quando era convidada), você ficava ali rebolando e ganindo como quem diz 'Mamãe, você tá demoraaaando!'.
Mas a maior alegria de todas era chegar em casa, e fazer a nossa festinha canina! A gente rolava no chão, corria pelo apartamento, você subia em cima de mim e me lambia o rosto. Isso quando não me dava uma patada que fazia meu óculos voar! Esse era o nosso momento, só meu e seu.
Outra felicidade imensa era levar você pra passear no aterro. Você ficava toda serelepe e faceira, porque lá era o seu quintal. Ah, e quando você ganhou sua toquinha? Eu fiquei morrendo de ciúmes, porque achava que você amava mais sua toca que eu (e me desfazer da sua toquinha foi a parte mais difícil...).
Às vezes eu pensava no quanto você me achava besta por te colocar um sem número de apelidos, todos sem sentido: Bizunga, Bizulunga, Buzunguinha, Rabocóptero, Bizunguitos sabor canino (?), Dengulosa, e por aí vai...
Olha, meu anjinho canino, eu espero que você tenha tido uma vida feliz comigo. Espero ter te dado dignidade e tranqulidade. Porque quando eu te adotei, foi pensando em fazer um bem pra você. Mas o que eu não sabia é que estava fazendo um bem muito maior pra mim. Te ter na minha vida, ainda que por tão pouco tempo, foi uma lição e tanto.
Você dependia inteiramente de mim, e foi a primeira vez em que vivi uma relação assim. E eu sempre quis te dar o melhor de mim, ser uma mãezona, ainda que não te deixasse subir no sofá ou entrar no meu quarto. (Aliás, queria que você soubesse, ainda que seja tarde demais, que, enquanto você estava lá na clínica lutando pra viver, eu prometi que se você não fosse embora eu te deixaria subir no sofá. E entrar no meu quarto. E subir na minha cama. E dormir comigo. Por favor me perdoe, eu sei que eu devia ter feito tudo isso enquanto eu tive a chance)
Minha buzunga, me desculpe se não fui a melhor mãe-de-canino do mundo, se te deixei sozinha em casa enquanto eu trabalhava. Mas eu tenho a certeza de que te dei o maior amor do mundo, mas, muito mais do que isso, eu aprendi o que é o amor puro, aquele que não exige nada em troca. E esse foi você quem me deu.
Muito obrigada por tudo.
Vai em paz."
"É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais..."

Fomos felizes. Minha cã e eu.
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